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Romper o Silêncio

O “silêncio da comunidade”. Este silêncio se manifesta quando alguém assume uma atitude autoritária frente ao grupo. E se manifesta, paradoxalmente, também quando um grupo condicionado à passividade se encontra numa situação em que tem que assumir sua palavra e sua decisão. Como ajudar a romper este silêncio de grupo, síntese de todas as formas de silêncio?

Silêncio... Um incômodo silêncio tomou conta do grupo, quando se abriu a palavra aos quarenta participantes do ciclo de estudos sobre educação popular para se discutir problemas da própria prática. Era o quarto encontro com Paulo Freire, no dia 1° de setembro de 1983. O gelo se rompeu quando alguém propôs que se discutisse o significado daquele silêncio...
Nem todos se conheciam naquele grupo. E muitos poderiam ter pensado: “Não estou muito por dentro do assunto. Os outros sabem mais do que eu. É melhor esperar...” Assim, ninguém tomava a iniciativa, talvez devido a certa insegurança ou timidez.
1. Essa timidez decorre da vivência num contexto social autoritário, em que aqueles que “pensam que não sabem” intimidam-se diante daqueles que “pensam que sabem”.
Em nosso contexto, somos sistematicamente formados para assumir este esquema de imposição-submissão em todos os relacionamentos do dia-a-dia.
2. Há como uma estratégia institucionalizada para se impor às pessoas o “silêncio do corpo”: em escolas de nossa região – conforme ouvimos dizer em conversas de corredores – se propõem prêmios para as crianças que não se mexem de seu lugar ou se castiga as irrequietas.
3. Ao silêncio do corpo se acrescenta a imposição do “silêncio da palavra”. Proíbe-se, por exemplo, que os estudantes conversem entre si e se institucionaliza a obrigação de repetirem quase mecanicamente apenas o que o professor ensina. E há professores que se esmeram em descobrir métodos para manter seus pupilos calados. É o caso daquela professora que, no início da aula, oferece a cada criança um gole de água, que deve ser mantida na boca até o final da aula e... ai de quem engolir! Medidas como essas são legitimadas e até mesmo incentivadas por aqueles que são encarregados de manter a ordem: quantas vezes não ouvimos elogios a professores ou diretores que “sabem manter a disciplina e se fazerem respeitar?”.
4. Além destas formas evidentes de repressão, há outras mais sutis que condicionam ao “silêncio da mente”. À custa, por exemplo, de ser forçado na escola a repetir sempre o que o professor diz, o estudante acaba sendo tolhido em sua capacidade de pensar com a própria cabeça. E, pior, tenta-se convencê-lo de que o saber “de quem tem competência” é absolutamente verdadeiro e incontestável.
Esta ideologia conduz os que “pensam que não sabem” a uma atitude de passividade.
5. Esta é um outro tipo de silêncio, o “silêncio da Vontade”. A pessoa – subalterna, evidentemente – não tem a permissão de decidir, pois quem decide é sempre o superior. Na melhor das hipóteses, sua proposta só adquire validade após ter passado pelo aval do chefe.
Essa dinâmica autoritária cerceia a autonomia das pessoas.
6. Mas a conseqüência mais terrível é que impede a articulação de grupos e de processos democráticos na decisão em qualquer nível de poder, gerando, então, o “silêncio da comunidade”. Este silêncio se manifesta quando alguém assume uma atitude autoritária frente ao grupo. E se manifesta, paradoxalmente, também quando um grupo condicionado à passividade se encontra numa situação em que tem que assumir sua palavra e sua decisão.
Como ajudar a romper este silêncio de grupo, síntese de todas as formas de silêncio?
7. O modo mais adequado de romper criticamente com o silêncio – tal como ocorreu na experiência que Paulo Freire nos contou (veja o tópico seguinte) – seria partir da vivência do próprio grupo e ir questionando o modo como seus participantes compreendem essa vivência. Deste modo, o grupo vai tomando consciência dos fatores que condicionam sua situação e, pouco a pouco, vai descobrindo e assumindo modos de transformá-la radicalmente.

FLEURI, Reinaldo Matias. Reinventar o presente... pois o amanhã se faz na transformação do hoje: conversas com Paulo Freire: com textos inéditos de autoria de Paulo Freire. Fortaleza: Edições UFC, 2008. 76 p. (Coleção Diálogos Intempestivos, n. 61). ISBN 978-85-7282-307-4. Disponível em: Repositório Institucional da UFSC — acesso ao livro completo. Acesso em: 24 out. 2026.